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escola como cidade

concurso nacional de arquitetura para escola classe no bairro crixá, promovido e organizado por CODHAB-DF

status: projeto
ano de  projeto: 2018
local: são sebastião, df | brasil
arquitetura: [costa e macedo] ricardson ricardo, josé maria, christiane costa, dhiego torrano [autores]; matheus pardal [colaborador]

Escola como cidade

“[…] sob a regência dos portugueses, matrizes raciais, díspares, tradições culturais distintas, formações sociais defasadas se enfrentam e se fundem para dar lugar a um povo novo (Ribeiro, 1970), num novo modelo de estruturação sectária. Novo porque surge como uma etnia nacional, diferenciada culturalmente de suas matrizes formadoras, fortemente mestiçada, dinamizada por uma cultura sincrética e singularizada pela redefinição de traços culturais dela oriundos.”

Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro

Para Darcy Ribeiro o Brasil é uma nação em processo contínuo de formação na direção da construção de uma nova raça com uma incrível síntese criativa. Esta premissa aplicada durante o processo contínuo de formação de nossas crianças criará a oportunidade de nos educarmos de forma mais consistente e madura, no sentido de sermos mais tolerantes com nossa identidade e diversidade étnica, religiosa e cultural.

Apesar deste potencial cultural, ainda constatamos problemas estruturais em nossa sociedade, como as diversas formas de violência, o racismo, e a intolerância social, representada pelos gravíssimos e crescentes problemas de exclusão da grande maioria de nosso povo, que apenas observa o desenvolvimento do país, de uma forma tão distante, que até parece uma outra nação. Esta segregação merece atenção especial, pois como sabemos os processos de exclusão e estratificação social é que geram problemas de intolerância e violência urbana acentuados.

Esta escola deve ser orientada por todas estas questões, pois assim terá plenas condições de, junto com a sociedade, difundir seus anseios e preocupações, com base na educação, e assim torna-se um espaço democrático e tolerante. Deve possuir as características presentes na nossa tradição arquitetônica e urbana, ou seja, um espaço para todos, aberto, fluido e continuo. Um lugar que permita a vivência, a troca, o encontro e, principalmente a experiência da diversidade cultural, própria de nosso povo, povo alegre e, essencialmente tolerante, apesar de sua grande maioria ser excluída dos processos de desenvolvimento do país.

O projeto da nossa escola procurou assegurar a permeabilidade e a continuidade do espaço público, de forma que possa ser acessado com toda fluidez de quem na rua anda, estabelecendo a fusão entre o público e privado de forma sutil e progressiva. Concebida em uma única cobertura os diversos blocos com usos distintos, são unidos por uma grande sombra, que acolhe quem da rua vem e funciona como uma grande praça coberta, distribuidora de fluxos, onde as crianças percorrem planos em desníveis sucessivos, alternando espaços abertos e fechados, conectando assim todos os ambientes da escola: espaços de produção, exposição, administração e lazer aos moldes de uma pequena cidadela.

A ruptura com o conceito do pátio-claustro não é por acaso, buscamos exatamente desconstruir a ideia deste lugar de controle e propusemos pequenos espaços mais próximos do domínio das crianças, conferindo identidade a cada um deles. Tais espaços, como pequenas praças, conectam os lugares das atividades didáticas, sendo o conceito público-privado, através da alternância entre aberto e fechado, o elemento constituinte do espaço existencial dos estudantes tendo a representação da cidade como seu principal espelho.

Uma generosa alameda percorre o terreno da frente aos fundos, sempre paralela ao bosque, concentra todos os dispositivos de transposição de níveis e ao seu término encontramos o auditório, a sala cênica e a quadra poliesportiva, tal endereço permite que este sistema funcione de forma autônoma junto com o refeitório em relação ao restante da escola, conferindo maior flexibilidade de uso ao pequeno complexo urbano.

A área pedagógica é formada por espaços flexíveis e mutantes, concebidos de forma que possam mudar de dimensão de acordo com a necessidade, graças a um sistema de painéis deslizantes, tornando a planta livre. Neste sistema a sala de leitura tem papel emblemático e simbólico, considerada o subconsciente da escola, “a caixa dentro da caixa”, está solta no ar, em posição vigilante, não para punir, mas sob o peso do conhecimento, evidenciar nossa responsabilidade como agentes transformadores da sociedade.

Na cobertura será implantado um mirante aberto à cidade, onde após atravessar uma ponte o pedestre encontra generosas visuais do entorno: ver o verde, ver a cidade, ver o por do sol,
este local é a nossa praça cívica. O espelho d’água funciona ao mesmo tempo como impermeabilizante da laje e barreira térmica protegendo as crianças do calor e em tempos de chuva, a água acumulada transborda na abertura do pátio e através de um piso drenante é armazenada em uma grande cisterna localizada no subsolo junto aos sistemas de bombas e filtros e estacionamento. A cisterna tem capacidade para 200.000 litros de água que será tratada para ser reutilizada na limpeza, rega dos jardins ou mesmo para ser vaporizada em tempos de seca umidificando o ambiente da escola.

O setor administrativo da escola está implantado em uma cota intermediária ao longo da Rua 3, permitindo a entrada e saída de funcionários, serviços administrativos e recepção de pais de maneira independente ao acesso dos alunos que será feito mais abaixo na alameda principal. Entre estes dois acessos está localizada a entrada de veículos para o estacionamento, cuja capacidade é de 72 vagas com previsão de vagas exclusivas para idosos, PNE e gestantes e um bicicletário com capacidade para 60 bicicletas. Ao longo desta mesma face do edifício é possível verificar a existência de 3 vagas de embarque e desembarque, sendo uma de uso exclusivo para PNE e, no limite do lote junto ao bosque uma vaga de carga e descarga.

A forma resultante configura uma lagoa retangular, projetada pelo homem, implantada segundo o desnível existente que, ao ser observada a partir da Avenida Crixá, é como se a escola não estivesse no local, ou tentasse ser invisível, funciona como um espelho d´água para refletir o bosque, o céu e a luz do pôr do sol. A lâmina de água é perfurada de modo a permitir a entrada de luz na escola, percorrendo livremente os ambientes, que ao iluminar as atividades pedagógicas, iluminará nossa sociedade e comunicará o que está sendo exposto, refletido e produzido pelas nossas crianças.

“…Educação não pode provir, nem do simples contato com as lousas, nem do simples contato com as pessoas, mas de uma participação que nos faz compreender causas, acontecimentos e atos à luz do seu atual sentido social…”

Anísio Teixeira